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| (Foto: Rodger Bosch/AFP) |
"Não havíamos imaginado nem um só segundo que esse sucesso fosse gerar
tanta indignação pública", contou a enfermeira Dene Friedmann, que na
sala de cirurgias com azulejos cor verde água acompanhou há 50 anos a
operação pioneira.
"O professor Barnard recebeu cartas muito críticas, cartas horríveis, que o chamavam de 'carniceiro'", recordou Friedmann.
"Abutre, sádico, anormal" eram alguns dos insultos que chegavam de todos os cantos do mundo.
"Por favor, pare com essas operações. Um homem jamais deveria
substituir um coração humano, já que o homem não pode substituir Deus",
afirmava uma carta em italiano.
Outra carta foi enviada da Austrália, com seu autor anunciando ao dr.
Barnard que havia pedido à polícia da Cidade do Cabo que o prendesse o
mais rápido possível.
Na ocasião, a revista francesa Paris Match também abraçou a polêmica
com a manchete "A batalha do coração. Os cirurgiões têm esse direito?".
No imaginário coletivo, o coração não é um órgão como os demais e sua
carga simbólica é muito maior. "Naquela época, havia muitas questões
éticas a resolver", explicou a enfermeira.
Mas comunidade científica celebrou a proeza técnica e também muitos
cidadãos aplaudiram o feito. "Um êxito mais importante que a exploração
espacial" e "Ouvimos este batimento de coração no mundo inteiro" foram
alguns dos comentários positivos.
Peito vazio
No primeiro andar do hospital de Groote Schuur, na Cidade do Cabo,
durante uma noite que já anunciava a chegada do verão, Louis Washkansky
ia receber o coração de uma jovem de 25 anos.
Na sala de cirurgia, Dene Friedmann se inclinou sobre o paciente anestesiado.
"Vi seu peito vazio, sem coração. Foi aterrador", revela.
Em uma sala anexa, o dr. Barnard ordenou que desligasse o aparelho da
doadora, Denise Darvall, que já estava com morte cerebral depois de um
acidente de carro.
Em 12 minutos, o coração deixou de bater e foi levado até onde se encontrava Washkansky, de 53 anos.
Para Barnard era muito importante que o coração de Denise Darvall deixasse de bater.
"Era o primeiro transplante de coração e ele não queria usar um coração que ainda estivesse batendo", contou a enfermeira.
"Havia muito nervosismo. Todos nos perguntávamos se o coração ia bater de novo", acrescentou.
O órgano foi colocado no peito aberto de Louis Washkansky.
"O coração permanecia inerte, sem sinais de vida", contou Christiaan Barnard depois da operação.
"Esperamos um tempo - que me pareceram horas - até que começou a se
distender lentamente. E, logo, houve uma contração do orifício da
aurícula, seguida rapidamente dos ventrículos. E pouco a pouco começou a
bater".
O cirurgião sul-africano de 45 anos venceu nessa corrida os americanos,
que também estavam a caminho de conseguir essa façanha.
E, em parte, o feito do sul-africano se tornou possível graças à
definição médico-jurídica da morte distinta em ambas as margens do
Atlântico.
Coração branco
Na África do Sul, um paciente é considerado morto quando os médicos o
declaram como tal. Nos Estados Unidos, em compensação, o coração deve
deixar de bater de maneira efetiva, o que reduz as possibilidades de
êxito de um transplante.
Christiaan Barnard poderia, inclusive, ter realizado a operação semanas
antes, já que havia um doador mestiço compatível, mas essa operação era
impossível no contexto do apartheid.
Teria, com certeza, sido interpretado como um novo ato demoníaco do regime sul-africano racista.
"Teria sido inconcebível dar a um branco o coração de uma pessoa de cor. O primeiro doador tinha que ser branco", explicou Friedmann.
Rumores na época falavam que um sul-africano negro, Hamilton Naki,
teria participado no primeiro transplante, mas foi privado pelo governo
do apartheid de qualquer tipo de reconhecimento.
Dene Friedmann esclareceu os fatos. Ela trabalhou com Hamilton Naki em
muitas experiências realizadas com cães, antes do primeiro transplante
humano.
"Ele era muito talentoso, mas nunca operou nenhum paciente. Não teve oportunidade, durante o apartheid, de praticar a medicina", explicou.
Mas, 18 dias depois desse feito mundial, Louis Washkansky morreu. A
necropsia revelou que a causa foi uma falha pulmonar e não de seu novo
coração. O paciente, com um sistema imunitário debilitado, morreu por
causa de uma pneumonia.
Diante da notícia, o dr. Christiaan Barnard, apelidado de "o homem com dedos de ouro", chorou, recorda Friedmann.
Sua conquista, no entanto, o fez entrar para a História. A enfermeira
contou ainda que o governo do apartheid, "encantado por ter, enfim, boas
notícias para dar, acabou nomeando Barnard seu embaixador".
Fonte: France Presse





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