No dia dois de julho de 1975, a explosão
de uma bomba no cine-teatro Apolo XI, então pertencente à diocese, na
cidade de Cajazeiras, no Sertão paraibano, abalou os cerca de 30 mil
habitantes da época, causou mortos e feridos e permanece, ainda hoje,
cercada de mistério, sem que autoridades policiais e governamentais
tenham relatado conclusões exatas sobre a autoria do atentado. A bomba,
de fabricação caseira, mas de alto teor explosivo, tinha potencial para
matar entre 100 e 150 pessoas se a explosão ocorresse com a sala de
projeção cheia de espectadores.
Um detalhe intrigante restou do fatídico
enredo do episódio: a valise verde com o artefato foi encontrado nas
imediações da cadeira cativa do bispo dom Zacarias Rolim de Moura, um
apaixonado por cinema, na descrição do escritor Francisco Sales Cartaxo
Rolim (Frassales), radicado no Recife e secretário de Planejamento do
governo Ivan Bichara Sobreira, que administrava a Paraíba naquele
período. Todas as noites, dom Zacarias, de posições moderadas ou
conservadoras, ia ver os filmes que ele mesmo selecionava no Recife,
junto às distribuidoras. O prelado, no entanto, não estava na plateia
que assistia ao filme Sublime Renúncia, que tinha, no elenco, Romy
Schneider. Numa cena de assalto a um banco, Romy abre uma caixa-forte
que provoca explosão de bomba-relógio. Ficção e realidade misturaram-se
na noite do dia dois de julho de 75 no cine Apolo XI. A época era de
radicalização política entre grupos de esquerda e de direita, tendo como
pano de fundo a ditadura civil-militar instaurada em 1964. Cajazeiras
era pólo de agitação política e cultural. O bispo dom Zacarias, quando
do atentado, estava no Recife, o que originou a especulação sobre se ele
teria sido avisado previamente da explosão e aconselhado a se ausentar
da cidade.
Dom Zacarias já faleceu, sem deixar
qualquer depoimento elucidativo a respeito dos acontecimentos – pelo
menos do domínio público. Também já morreu o ex-deputado estadual e
suplente de senador João Bosco Braga Barreto, líder de massas em
Cajazeiras, que liderou uma romaria a Juazeiro do Norte, Ceará, para
agradecer votos recebidos em eleições naquela cidade. Bosco foi
incomodado por agentes da Polícia Federal e ameaçado de ser enquadrado
na Lei de Segurança Nacional, mas nada ficou provado sobre sua
participação no atentado. O soldado Altino Soares (Didi) teve as pernas
amputadas e foi removido para o hospital Edson Ramalho em João Pessoa,
juntamente com Manuel Severino. Ambos morreram. Outras duas pessoas
ficaram feridas.
De acordo com o jornal oficial A União, a
notícia só chegou a João Pessoa no dia três de julho, à tarde, quando
passou pelo aeroporto Castro Pinto um avião da FAB conduzindo um
coronel, um major e um capitão do Exército, integrantes de uma comissão
designada para apurar o caso. O governador Ivan Bichara Sobreira – cujo
centenário de nascimento transcorre este ano – ao visitar o cinema,
ficou impressionado com os estragos causados pelo artefato mortífero e
conversou com o bispo dom Zacarias demoradamente. O bispo deu
declarações de que estava tranquilo. Não tenho inimigos. Se
ideologicamente entro em divergência com outras pessoas, não vejo razão
nenhuma para que isso justifique um atentado, pois sou apenas um
discípulo de Deus, enfatizou. João Bosco Braga Barreto teve a
solidariedade da Assembleia Legislativa e qualificou de ridículas e
absurdas as insinuações de que ele teria sido mentor do atentado. Ainda
recentemente, aproveitando a criação da Comissão Nacional da Verdade,
com ramificações na Paraíba, o escritor e economista Francisco Cartaxo
tentou interceder para a reabertura de investigações a fim de
esclarecer, de uma vez por todas, as responsabilidades, mas o apelo não
surtiu efeito mais conclusivo. Passadas pouco mais de quatro décadas, a
explosão do Apolo XI em Cajazeiras continua a ser um caso misterioso e,
do ponto de vista dos arquivos policiais, insolúvel em tese.





0 Comentários